quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Canção do vento e da minha vida


O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.

MANUEL BANDEIRA

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter essa sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes, eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não Então a grande dança dos erros. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem distraídos.

Clarice Lispector

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Discurso





Existe sensação melhor do que a de perdoar? Foi o que me perguntaram.
A consciência respondeu por mim: 
Se existe, nenhum ser humano a experimentou ainda.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Aniversariar


Me disseram que eu tenho direito a um pedido,
mas eram tantos,
soprei a velinha e eles ficaram espalhados pelo ar,
a verdade é que só quero um: SAÚDE!
Porque o resto é resto e sempre será.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

La Gloria





"Por qué negar que estoy de ti enamorado
de tu dolce alma 
que es toda sentimiento..."

(Jose Antonio Mendez, 
canción La Gloria Eres Tu)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Sentimento russo


Ouço muito bem,
já não tocam mais
os sinos de Saint Petersburg.
Com o vestuário da mudez
usaram o livre arbítrio.

sábado, 24 de agosto de 2013

Deveras









A intuição se envaideceu
da desilusão que
deveras foi anunciada.
Só ela sabe como isso termina
                                         [ponto final]

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Embaixada


A noite toda foi de rock,
na manhã fria e cinzenta,
minha alma encarnada era umas das poucas
que circulavam nas ruas do centro.

Sem sono anterior,
vaguei com invejável atenção,
senti a arquitetura,
respirei possibilidades,
visualizei os sonhos verdadeiros.

Na cabeça tocava Barão Vermelho,
um pingue-pongue entre passado e futuro
travava uma disputa justa...
Por fim, atualizei minhas potências
em frente a Embaixada dos Estados Unidos da América.

O futuro venceu,
o passado reconheceu,
e o presente se compadeceu.
O que aconteceu depois?
Ah, o domingo e o seu silêncio.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Reticente


O sonho foi apenas visual. 
Nenhuma palavra foi dita. 
Nossos olhos, em um raro momento de proximidade, 
escreviam tratados de distância e falsa sinceridade.
[Reticências]

domingo, 24 de março de 2013

A cultura da desilusão


Até que ponto podemos manter uma ilusão latente sobre os nossos anseios quando constantemente somos frustrados, desconsiderados e ridicularizados?


Quando decido escrever sobre algum tema, seja ele qual for, prefiro sempre lançar o meu olhar sobre a etimologia da palavra, a curiosidade aponta para o que aquele termo escolhido tem a falar na sua essência. É um caminho surpreendente, pois a partir das definições primárias, a minha capacidade de reflexão se potencializa e a oportunidade de compartilhar com o leitor ganha um poder incalculável.
Após alguns dias de intensa observação e também de análise das muitas experiências dos últimos anos, quiçá de uma vida inteira, tenho percebido que dois vocábulos diferentes na significação estão não somente andando de mãos dadas, como muito bem casados, digo assim para trazer uma imagem poética da situação que no fundo me deixa preocupado, e, portanto, me faz escrever.
O nosso ponto de partida é a palavra “cultura”, do latim colere significa cultivar, é uma definição ampla na sua origem, mas que ao longo da história ganhou mais especificidades pelos grandes pensadores em suas devidas áreas, são ao menos 200 tentativas. Quero pensá-la aqui como um hábito, uma crença analisada e uma postura consciente diante do que vemos do mundo.
Outra palavra que acrescento nesta reflexão é “desilusão”, variante de ilusão que vem do verbo em latim illudo (divertir-se, recrear-se, também burlar e enganar). Iludir se configurou na língua portuguesa com o sentido de uma impressão enganosa ou ter a esperança de algo desejável. Sendo assim, posso definir desilusão como a perda temporária ou definitiva desta esperança, independentemente do grau, há sempre a presença da decepção, uma palavra calejada e muito conhecida quando o assunto é conquistas culturais e suas atribuições em todos os âmbitos.
Até que ponto podemos manter uma ilusão latente sobre os nossos anseios quando constantemente somos frustrados, desconsiderados e ridicularizados? Posso acreditar que haverá crescimento moral, intelectual, físico e até mesmo espiritual do ser humano com teatros fechados, interditados, inacabados ou em ruínas? Difícil. Existe a possibilidade de artistas de todas as áreas serem respeitados, ouvidos e dignificados? Ainda não a vejo. As instituições das diferentes esferas (federal, estadual, municipal e iniciativa privada) algum dia conseguirão dialogar, negociar, ceder, oferecer e promover a arte e a cultura¿ Um “talvez” muito tímido grita dentro de mim. O dinheiro público será respeitado como deveria quando o destino dele for para obras e projetos culturais? A dúvida é sempre maior.
Mergulhado nestas e outras tantas questões relacionadas me autodiagnostiquei com a moléstia que denomino “cultura da desilusão”, porém terei chances de cura quando não usarem a cultura para autopromoção de governos, quando um professor de artes for respeitado por alunos, pais e outros professores, quando todos os espaços culturais estiverem em pleno funcionamento, quando um artista recém-formado em universidade tiver perspectivas de trabalho, quando a população não for mais enganada com falsas beneces, trapaceada e subestimada na sua credulidade de dias melhores, e mais ainda, quando a arte e cultura não forem tratadas com migalhas pelos que têm a ilusão de não precisarem dela para evoluir suas almas. Até quando vai perdurar essa desilusão catastrófica? Existe mesmo a cura? Que a luta nos seja o remédio.

Eduardo Humbertto
Uberlândia (MG)
eduardohumbertto@hotmail.com

FONTE:
Jornal CORREIO de Uberlândia
http://www.correiodeuberlandia.com.br/pontodevista/2013/03/24/a-cultura-da-desilusao/

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O que há de mais sagrado


Poema do amigo e poeta Bruno Gaspari.
Visitem o blog dele, o conteúdo é de alta qualidade. RECOMENDO!
http://bs-bg.blogspot.com.br/

Curtam no Facebook a página: Poeticamente Falando, e receba as atualizações de amigos poetas
http://www.facebook.com/poeticamente.falando1?fref=ts

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Poema do Pranto



Edição: Bruno Gaspari
Publicado em: Poeticamente Falando (Facebook)
Link: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=222425584560980&set=a.197098350427037.51791.194948743975331&type=3&theater

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Vocalidades

Por Eduardo Humbertto

As palavras pecam
pelo excesso de sinceridade.
Como um ‘repeat’ quebrado
as facetas de uma mesma voz
me enlouquecem...

As nuances trazem
a fragilidade como sub-texto,
e mais uma vez
acredito em tudo,
atribuindo um atestado de
                                        [confiança].

O tempo, o vento e a vida
não permitem que as palavras fiquem,
apontam para o lado
                               [oposto]
e esperam a minha reação.

Ah! Se ao cessar dos olhos
o silêncio fosse pleno.
Não foi, não é e nunca será.
O que é vivo no coração
lateja por todos os poros em ondas sonoras de esperança.

* Poema finalista no Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2011 - SESC-DF. 
* Vai integrar a  Antologia do Prêmio com publicação prevista ainda em 2012.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Alívio

Por Eduardo Humbertto


Hoje me permito
questionar o que se passa,
observo um objeto que
 sempre esteve aqui
                              [e por tempos desprezado].

O empoeirado é um atrativo,
as folhas em branco pedem atenção,
preencho o bloco do poeta e,
venero aquela que chega, a inspiração.

Escrever sempre será
o meu impulso primeiro,
nunca pontual ou autoritário,
de atravessar as fases e...
                                       [saborear os sentidos].

Com a coragem, antes ausente,
 busco a firmeza dos rascunhos,
este combinado de lápis e madeira pálida,
que escondem o que senti um dia e
                                                     [ficou eterno].

sábado, 25 de agosto de 2012

O teatro de rua faz história no bairro Fundinho

HUMBERTTO, Eduardo. O teatro de rua faz história no bairro Fundinho. Jornal Fundinho Cultural. pg 10. Agosto/2012, Ano IX. Uberlândia-MG.

Fotografia: Simone Guaratto

            O sol vibrante e o frio surpresa foram os ingredientes de uma tarde mágica na Praça Clarimundo Carneiro, dentro da programação do Festival Latino Americano de Teatro Ruínas Circulares – 4ª Edição, o bairro Fundinho foi o palco de um dia histórico para o teatro na cidade e toda a região.
              O Grupo Tá Na Rua (RJ), um dos mais importantes e tradicionais do país no que diz respeito ao teatro de rua e referência também no exterior, presenteou a comunidade uberlandense com a apresentação do espetáculo “A Revolta de São Jorge Contra Os Invasores da Lua”, que ocorreu após um Cortejo Teatral no centro da cidade, findando-se na Praça Clarimundo Carneiro. Seus mais de 20 atores contaram a história da chegada do homem à lua e como São Jorge reagiu a esta invasão em seu território, com muita música e guiados pelo diretor/narrador Amir Haddad, grande nome das artes cênicas no Brasil, os atores encenaram a fábula com alegorias, muita expressividade, contato direto com o público e entusiasmo contagiante.

                 O Festival Latino Americano de Teatro Ruínas Circulares é uma realização da Universidade Federal de Uberlândia, e em sua quarta edição trouxe o tema: O Teatro e a Rua. Foi também um momento de prestar homenagens a personalidades do teatro brasileiro: a atriz Ana Carneiro (Professora do Curso de Teatro/UFU) e ao ator e diretor Amir Haddad, ambos são membros fundadores do Grupo Tá Na Rua há 32 anos.

                  As atividades do festival foram espalhadas pela cidade dando possibilidade de acesso para grande parte da população, e claro, o bairro Fundinho mais uma vez foi protagonista de momentos que só a memória tem a capacidade de recriar e guardar para a posteridade.

Eduardo Humbertto
Graduado em Teatro pela
Universidade Federal de Uberlândia
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Confira a versão impressa do Jornal FUNDINHO CULTURAL, pode ser encontrado em diversos pontos da cidade.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

[BUDDHA...]


"Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque esta escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o." (Buddha)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ELIS: A chama ainda não se apagou


Por Eduardo Humbertto


Há exatos 30 anos, o Brasil era surpreendido com a notícia de sua partida, findava-se ainda no auge de talento e juventude, uma carreira brilhante e singular. ELIS REGINA CARVALHO COSTA, a “Pimentinha”, ou simplesmente “Elis” como preferir, se foi em tempos férteis da música brasileira, onde ela era a maior, inquestionavelmente, e o tempo teima em não dizer o contrário, mesmo após três décadas de ausência física. Me refiro assim, pois ela está presente, viva, jovem, radiante em sua melhor forma até hoje. Talvez seja esse o consolo por se morrer tão jovem e no auge do estrelato.

Não quero somente reforçar elogios à Elis e me perder em adjetivos batidos, mas me posicionar como defensor da memória artística e cultural do Brasil, que muitas vezes não é tratada como o tesouro imaterial que é, com raras exceções. Guardar a memória de um artista é preservar o retrato de uma época, de um sopro de vida em algum lugar do tempo que não coube apenas à época que pertenceu. Elis Regina é um exemplo disto, viveu intensamente uma carreira de poucos mais de vinte anos, que se desdobrou ao longo do tempo, chegando aos dias de hoje ainda como referência a ser alcançada.

Na tentativa de preservar sua memória e contribuição, somos convidados a redescobri-la, o que acontece naturalmente, devido à quantidade e qualidade do repertório que Elis gravou. Passando das mais conhecidas (Fascinação, Maria Maria, Como Nossos pais, O Bêbado e a Equilibrista, Águas de Março, Atrás da Porta), chegando para as menos conhecidas do grande público e com qualidade equivalente (20 anos Blues, Querelas do Brasil, Mestre Sala dos Mares, Agora tá, O rancho da goiabada, Marcha da Quarta-feira de Cinzas, Corrida de Jangada, Sabiá, Na Batucada da Vida, Caxangá, Velha Roupa Colorida, Meio de Campo etc), a cada nova descoberta de pedaços de um repertório tão extenso é como se ela ainda estivesse produzindo, viva como nunca, alimentando a admiração de fãs apaixonados pela música que só ela pôde transmitir com tamanha verdade e entrega, características estas, que mais admiro em um artista, verdade para lidar com a arte e entrega para fazer dela um ofício atemporal.

Este ano, em memória dos últimos 30 sem Elis, será um período de homenagens, relançamentos de discos raros, realização de uma exposição itinerante que passará pelas principais capitais, e apresentação de cinco shows de Maria Rita cantando músicas do repertório da mãe, algo ainda inédito e que promete grandes emoções. Elis se foi cedo, mas deixou uma legítima representante do talento, semelhante na aparência e na voz, mas com personalidade própria. 30 anos depois, Elis é uma chama que ainda não se apagou, e que ainda vai iluminar futuras gerações inspirando brilhantismo e personalidade. VIVA A MÚSICA BRASILEIRA.

"A voz continua, viva e límpida. Continua nos discos e nas fitas. E ainda mais viva e mais límpida na nossa saudade." Luiz Fernando Veríssimo